O Brasil precisa de Mais Médicos?

(Texto publicado na página do facebook de Felipe C. Argolo)

Minha última postagem gerou uma polêmica positiva e ficou uma curiosidade geral em olhar os dados sobre densidade de médicos no Brasil em relação a outros países.

Pois bem, peguei os dados do World Bank sobre densidade de médicos (por 1000 hab.) e cruzei com os dados da WHO sobre indicadores de saúde. Usei os dados mais recentes disponíveis para cada país (pelo menos mais recentes que 2010).

Ao começar a explorar os dados, plotei a densidade de médicos com a expectativa de vida saudável (EVS). Para minha agradável surpresa, encontrei uma linda curva logarítmica.
Primeiro eu pensei em como a matemática, a estatística e o universo são bonitos. Depois, fiquei curioso em ver onde o Brasil e outros países estavam no gráfico.
A figura está abaixo.

LEHealthy

 

Para os menos familiarizados, a curva mostra que há uma correlação positiva muito forte entre número de médicos e expectativa de vida saudável mostrando uma correlação bastante forte (r de Pearson = 0.831 após aplicar a transformação logarítmica; que teria um p de 0,00000000000000022 se fosse uma amostra aleatória), porém o crescimento se dá de forma mais acentuada no início da curva. No começo da curva (com países de expectativa de vida baixa), variação no número de médicos tem impactos grandes na EVS.

Para valores mais altos, essa mudança é muito menos sensível. Isso sugere (correlação não é causa) que os países com pouquíssimos médicos têm grandes benefícios em investir no aumento do número. Já países com um número razoável se beneficiariam menos.
E como está o Brasil? Nosso país tem, aproximadamente, 1,891 a cada 1.000 habitantes e uma EVS de 65 anos.

As conclusões a seguir devem ser lidas com cuidado, pois o contexto de saúde pública de um país é multivariado2, entrando em conta outros fatores além da densidade de médicos e da EVS. Além disso, como disse antes, correlação não é causa. Podem existir fatores de confundimento. Entretanto, muitas vezes, poucas variáveis são o suficiente para descrever fenômenos complexos e, dada a grandeza da correlação aliada à plausibilidade das conjecturas que farei, considero ideias dignas de serem lidas.

A primeira coisa interessante a se notar é que o Brasil está aproximadamente “na curva”. Isso significa que estamos fazendo o esperado para o número de médicos que temos. O ideal seria estar acima da curva, oferecendo mais EVS com menos médicos (menores custos com folha salarial para o Estado e investimentos em estrutura). Os países em azul estão acima da curva.

É interessante notar também que Canadá e Japão, países com sistemas de saúde reconhecidos por sua excelência, apresentam densidade de médicos apenas ligeiramente superior à brasileira (Canadá = 2,068; Japão = 2,297), porém uma EVS muito maior:72 e 77 anos, respectivamente. Eles estão fazendo muito com um número de médicos similar ao nosso.

Os países em vermelho são exemplos em sentido contrário, com muitos profissionais e uma EVS relativa baixa. Esses países possuem mais médicos que o Canadá ou o Japão, mas as melhorias esperadas não foram atingidas. A Rússia, por exemplo, tem 4,3089 médicos por habitante. Mais que o dobro do Canadá. Sua EVS, entretanto, é menor que a brasileira, estando equiparada a países como o Iraque (EVS = 61 anos em ambos).

Por fim, outros dois exemplos dignos de nota são Chile e Costa Rica, ambos latinos, apresentando menos médicos que o Brasil (1,026 e 1,113 respectivamente) com uma EVS maior (72 e 69).

A polêmica do post anterior (http://on.fb.me/1PHzWlZ) foi sobre o Mais Médicos. Com base nessas evidências, não considero a estratégia de investir no aumento do número de médicos como a mais inteligente para países como o nosso.

O principal motivo é que os ganhos esperados são poucos, uma vez que estamos num ponto da curva onde a inclinação não é mais tão íngreme.

Além disso, o caso da Rússia serve para fazer alguns paralelos, pois apresenta condições semelhantes às do Brasil em alguns aspectos, como extensão territorial imensa, diferenças geográficas na concentração de médicos e estrutura precária de hospitais e serviços. Mesmo com o dobro do número de médicos do Canadá, o país apresenta EVS igual à do Iraque. Muitos médicos sem apoio não resolvem muita coisa.

Pelo contrário, é possível fazer muito com poucos (Costa Rica e Chile) se a estrutura for adequada e o sistema de saúde funcionar de maneira integrada e eficiente.
Pensando em custos, investir no aumento de profissionais é contraproducente. Gasta-se na instalação de faculdades ou financiamento de alunos e, ao fim das contas, esses médicos vão onerar a folha de pagamentos do SUS, uma vez que a quase totalidade de nosso sistema de saúde (felizmente) é público. Em contrapartida, investimentos na melhoria do sistema existente ofereceriam melhores retornos. O SUS precisa integrar seus componentes, modernizar seus serviços e inovar em sua forma de ação.

Por fim, o Brasil apresenta um número imenso de problemas secundários que podem ser endereçados para melhorar seus indicadores de saúde. Índices de violência monstruosos: cerca de 50.000 homicídios ao ano, números que poderiam diminuir com uma revisão das políticas de segurança pública. É muito mais caro pagar material e um time de médicos para operar uma vítima de arma de fogo que prevenir o incidente.
Em conclusão, creio que o Brasil não precisa de mais médicos. Temos mais que o Chile e apenas um pouco menos que Canadá e Japão. Soluções mais inteligentes existem.

Por Felipe C Argolo

1 Esse texto é apartidário. Apesar de criticar uma política do governo federal, não tenho a intenção de demonizar o PT ou a presidenta. Nosso país tem mais a crescer se nos dedicarmos a construir algo positivo ao invés de apenas criticar o que está sendo feito. Como “gesto de paz”, cito o Hospital do Subúrbio (implementado por secretário de saúde e governador petistas) em Salvador como exemplo de uma das inovações de que o SUS precisa.

2 Limitei-me apenas à análises descritivas mais simples. Talvez, em breve, um novo texto com uma análise mais rebuscada da regressão, levando em conta outros fatores.

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